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Nova lei pode contribuir para acidentes na pesca lúdica


Pescadores profissionais sem condições no mar escondem-se nas falésias para a captura do sargo e são seguidos por forasteiros. Já há luta pelos lugares na costa




"Nota-se imensa disputa pelos pesqueiros na costa vicentina, há quem venha para aqui de noite marcar lugar com uma cana ou um saco até ao romper do dia, e muitas pessoas até deixam de se falar porque entendem que um amigo está mesmo ao lado para lhes tirar a hipótese de capturar peixe."


Quem o diz, em declarações ao DN, é Hélder Fernandes, de 69 anos, aposentado e residente em Silves, um dos muitos que se dedicam à pesca lúdica nas falésias da zona do Pontal da Carrapateira, no concelho de Aljezur. Quando na sexta-feira, cerca das 20.00, deixou aquele local na sua viatura, depois de ali ter chegado às 08.00, guardava no balde duas safias para o jantar. "Há dias em que nada levo", nota Hélder Fernandes, frisando que a ocasião propícia para a pesca à linha "é quando há ondas, por exemplo, com dois ou três metros de altura, pois nessa situação o peixe 'pega' melhor". Já com ondas muitas curtas e mar raso, como foi o caso de anteontem, tal "não é capaz para pescar".


No dia 27 de Janeiro deste ano, ocorreu naquele local, no Pontal da Carrapateira, o mais recente acidente mortal na costa vicentina, quando um pescador lúdico, de 46 anos, caiu ao mar, tendo o corpo sido recuperado pelas autoridades.


Mas nem o risco afasta as pessoas da zona. "A malta está habituada e sabe onde estão os maiores perigos nas falésias. Quando a gente desce e chega ao pesqueiro, o piso aí é diferente do que estar cá em cima. Às vezes, vamos com cordas para garantir segurança. Só os mais novos, que querem sujeitar-se a certas coisas, não ligam a isso. De nada serve a gente avisar. Já tenho dito: 'Não vá para aí, que o mar, às vezes, pode chegar a esta zona e tornar-se perigoso. Mas há pessoas que ainda gozam com a gente, depois apanham uma molha e nessa altura é que nos dão razão'", conta Hélder Fernandes.


Sobre a nova legislação, que impõe, entre outros aspectos, defeso e o peso máximo de 7,5 quilos a cada pescador lúdico, além do limite mínimo de 15 centímetros no tamanho das espécies, este pescador concorda. "Se pescasse sempre 7,5 quilos seria uma festa para mim. Às vezes, apanho dois, três quilos, um quilo… ou nada", observa.


Sérgio Santos, presidente da Junta de Freguesia da Bordeira, que abrange a zona da Carrapateira, em Aljezur, é mais crítico. "A lei, da responsabilidade do Ministério do Ambiente, está malfeita ao prejudicar os pescadores profissionais desta área." E especifica a acusação: "Devido à falta de condições do mar para a sua actividade nos barcos e inexistência de portos de pesca [os pescadores profissionais] têm de se esconder nas rochas para pescar e não serem multados (coimas de 500 a dois mil euros) pela fiscalização, pois não têm licenças para a pesca lúdica. Muitos forasteiros, ao vê-los, vão também para essas zonas de difícil acesso para apanhar peixe, mas, como não as conhecem, acabam por escorregar e sofrer acidentes."


André Pedro, de 30 anos, que tanto pesca em Sagres como na zona de Aljezur, lamenta que os pescadores "deixem muito lixo espalhado pelos pesqueiros e no mar, como latas, garrafas e papéis". "É necessária mais sensibilização para esta questão em vez de multarem pescadores lúdicos por apanharem, por exemplo, sargos na desova."


Por seu turno, o comandante dos Bombeiros Voluntários de Vila do Bispo, Joel Ramos, encara o lixo no chão como uma "armadilha" para acidentes em falésias, com escorregadelas. Por outro lado, alerta para o risco de quedas nos trilhos (espaços de acesso aos pesqueiros), "onde as águas da chuva podem provocar muita erosão".

Fonte: DN

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